crônicas e fragmentos

Quando levantou, senti um leve cansaço. Três homens de cada lado, seis pessoas carregando outra, deitada, imóvel, sufocada entre flores brancas e um véu idem – pelo o que lembro, antes de fecharem com a tampa. O céu mais azul, o sol mais quente, o tempo mais seco, ecoava o pálido som do silêncio. Mas este silêncio agora morava dentro de Carlos, abafado pela morte da vida. A velha da calçada da frente parou de varrer para olhar o caminho de gente que se formava em procissão à casa dos mortos. Aquele olhar, que já tudo vira na vida, acompanhava com vivacidade cada passo. E cada segundo da não-mais-vida de Carlos se tornava um momento de pura lucidez para a velha do vestido rosa. O átimo era sagrado, um pedaço de tempo que não voltaria mais. Limpou os lábios levemente com a língua seca, piscava os olhos pesadamente, cansada, parada, inerte.

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